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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Forte, vaidosa e espelho para mais novas, Jade vira página rumo a 2016

Ginasta brinca que está gorda, mas não tem vergonha de se exibir em redes sociais: ‘É bom mostrar que superatletas têm esse lado feminino’

Ao encarar o espelho, Jade Barbosa gosta da imagem que vê refletida. Não enxerga primeiro a beleza que ele teima em mostrar. Vai além. Diz que a Jade que hoje fita seus olhos é uma mulher forte e menos vulnerável do que em outros tempos. Tem orgulho dela. Aos 21 anos, depois de tantos obstáculos na vida e na ginástica, acredita estar pronta para servir de espelho para a nova geração. Gosta da responsabilidade de ser uma das mais velhas da equipe nacional. E quer transferir conhecimento no ciclo olímpico que pode marcar a sua despedida, nos Jogos do Rio, em 2016. Jade Barbosa  ginasta especial  (Foto: André Durão )
- Hoje eu estou muito mais velha, calejada. Não é qualquer coisa que me prejudica ou para qual afrouxo. Já vivi muitos momentos bons e ruins. Tenho uma experiência vasta. Acho que com isso a gente só fica mais forte. E é bom ter essa força para as Olimpíadas. Fico feliz também de ter me tornado uma mulher, embora não saiba se possa chamar assim porque muitos veem a gente da ginástica sempre como uma pequena, mas estou mais forte e não vulnerável como era. As pessoas ainda me veem chorando, mas não sabem que é um mecanismo de defesa. Eu choro durante um treino, por exemplo, para passar a dor, para que ela vá embora. Minha psicóloga falou que quando me virem chorar é para me deixarem assim, por dois minutos, porque depois passa. Meus técnicos nem ligam mais quando isso acontece – riu.
No meio do ano passado, as lágrimas demoraram a sumir do rosto de Jade. No finalzinho da preparação para os Jogos de Londres, não aceitou assinar o termo em que se comprometia a usar os uniformes com os patrocinadores da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) e foi cortada da seleção. No dia seguinte, apesar de ter revisto a posição, não conseguiu comover os dirigentes.
A página parece virada, ao menos para ela. Jade só consegue pensar em 2016. Até lá, nada de Cirque du Soleil ou de estudar numa universidade americana. Os convites, feitos durante sua viagem de férias, vão ter que esperar. Nos 16 dias que passou pelos Estados Unidos, não teve como ficar longe do ginásio. Precisava se manter em atividade depois de tomar conhecimento que em março já tem competição. Se estará entre as convocadas para a etapa da Copa do Mundo, são outros quinhentos. Motivada, ela está. Parte do fôlego novo veio das jovens ginastas americanas, que não tiravam os olhos da dona da medalha de bronze do individual geral no Mundial de Stuttgart, em 2007, e do salto na edição de Roterdã, em 2010.
- Foi muito legal ver que elas sabiam quem eu era.

Jade Barbosa  ginasta especial  mosaico galeria (Foto: André Durão)

Fui só para passear em Los Angeles. Aí descobri que tenho competição em março e não podia ficar sem treinar lá. Fui com a Gabi Soares para a casa de uma amiga e alugamos um carro para ir a Las Vegas, San Diego e Santa Monica. Eu digo que nem tirei férias. Eu passei por lá e tirei umas fotos. Tinha que ir para a academia treinar. E foi bem legal porque a gente nem precisou pagar, como é comum lá para usar o ginásio. Nós fomos bem recebidas. As meninas pequenas paravam para ver a gente fazer alguns movimentos com os olhos arregalados. Como a McKayla Maroney (medalhista de prata em Londres) só chegou na segunda semana, nós fomos a sensação na primeira. Foi muito legal ver que elas sabiam quem eu era. Os 16 dias por lá foram legais. Consegui visitar a Universal Studios, acompanhar uma competição universitária e ver uma apresentação do Cirque du Soleil. Recebi uma proposta deles para me juntar à companhia e outra de uma universidade. Mas eu disse que só poderia pensar nisso depois dos Jogos de 2016.
Quando o ginásio do Flamengo pegou fogo você estava aqui?
Ainda estava. Não dá para acreditar no que aconteceu. Quando fui ao ginásio parecia um filme de guerra. Chorei muito. Atletas e técnicos passaram muitos bons momentos ali. Cada um contribuiu para que aquela estrutura fosse construída. Com aparelhos que foram doados por causa do Diego Hypolito ou por causa de mim. A sensação foi como se tivessem queimado a minha casa.

Nos últimos dois anos, a menina tímida deu lugar a uma mulher que passou a se expor mais. O que motivou essa mudança de compartilhar também momentos da sua vida pessoal nas redes sociais? Como lida com o assédio, com o interesse que não se volta apenas para a atleta?
Isso ainda é bem novo para mim. De um tempo para cá tem acontecido. Não estou acostumada ainda.  Mas acho que ter que falar desde muito cedo com jornalistas, o que não era agradável porque tinha que pensar no que ia dizer e no que as pessoas iam pensar, me calejou bastante. Então passei a agir mais naturalmente. Acho que os fãs querem saber o que você está fazendo não só nos treinos, mas fora também, e as redes sociais proporcionam isso. Eu coloco fotos quando vou à praia, a uma festa ou em cima do skate. E ali eu não preciso falar nada. É claro que tem comentários que não são bem-vindos. Agora que estou mais velha, não me veem só como a ginasta pequenininha. Mas eu imponho limite, porque as pessoas acham que te conhecem e não é assim.
Neymar tem quase a sua idade, também gosta de redes socias e virou seu amigo e de outras ginastas. Qual o exemplo que vocês tiram de um jogador como ele?  
É engraçado isso. Eu o conheci num camarote no carnaval. Ele me perguntou: “Você é a Jade que pula, né?” Conversamos, dançamos e um ano depois o reencontrei numa festa. Eu fico impressionada como Neymar é humilde. Ele atende bem as pessoas, o que é difícil de ver hoje em dia, porque todo mundo está sempre sem tempo. Ele tem foco para tudo o que faz. Fiquei muito feliz em conhecê-lo e ver que um atleta mais jovem do que eu, com o tamanho da responsabilidade que carrega, pode dar tantos bons exemplos para mim.

Jade Barbosa  ginasta especial (Foto: André Durão )
Ele é pai e mãe ao mesmo tempo. Outro dia, ele falou que tinha visto uma enquente na internet com um percentual de votos para que eu posasse pelada. E eu falei: “Pai, não acredito que você está falando disso assim”. Eu estava com vergonha e ele levando na brincadeira. Meu pai não vê problema de ver as pessoas olhando para mim. Ele sabe como sou e confia em mim. Eu nem ligo muito para o assédio. Quem não está acostumado a sair comigo é que repara mais. E nem estou bonita assim, estou gorda (risos). Meu irmão é que tem ciúme. Na rua, reparei que ele não andava do meu lado, mas atrás de mim. Perguntei o motivo. Ele disse que era para ninguém olhar para a minha bunda (risos). Eu também tenho ciúme dele. O Pedro cresceu e tem um monte de menina se jogando em cima dele. 
As jogadoras de vôlei estão fazendo ensaios sensuais, trabalhos como modelo e tirando proveito da beleza. O que você acha disso? Faria um ensaio como a Sheilla fez, por exemplo?
Não acho uma coisa ruim, não. As pessoas não podem esquecer que atleta não é um robô. É mulher também. É bom mostrar que superatletas têm esse lado feminino, têm vaidade. É engraçado porque aqui na ginástica estamos sempre de collant e quando as pessoas nos veem de vestido, com cabelo solto e maquiadas se assustam. Acho que faria um ensaio de modo que não agredisse a carreira. Não posso esquecer que sou atleta e que crianças têm um espelho em mim. Então, é complicado.
Como é olhar para trás e reviver a dor de ter ficado fora de Londres. Acha que aquele episódio pode vir a prejudicar futuras convocações para a seleção?
Eu tenho a mesma ginástica que tinha antes. Não fiquei pior de um ano para o outro. Eu não fui aos Jogos por falta de capacidade ou talento. Não fui cortada por isso, mas pelo jeito, por uma consequência de ter reclamado de uma coisa que acho normal. Mas espero que isso mude neste ciclo, que seja mais tranquilo. Depois das Olimpíadas eu fui campeã brasileira no individual geral, salto e assimétricas. Nós temos várias meninas novas e das mais velhas, só eu, Daniele e Adrian Gomes estamos treinando. As outras estão machucadas. O que eu tenho que fazer é trabalhar.  Estou sem patrocínio, gostaria muito de um, mas nesse começo de ciclo vou contar com o salário do Flamengo, do Bolsa-Atleta e da seleção, se for convocada.
Jade Barbosa brinca em parque nos Estados Unidos (Foto: Reprodução Instagram)
Este ano começou bem difícil, bem puxado já. O problema de não ter um ginásio para treinar está preocupando muito. O CT aqui do Velódromo vai acabar e ainda não foi resolvido o lugar para onde vamos. Isso, a quatro anos das Olimpíadas, preocupa porque a ginástica alcançou um lugar tão bom com Diego e Daniele Hypolito, comigo, Sergio Sasaki, Arthur Zanetti, que conquistou o ouro olímpico. E dependendo do local que for escolhido, vamos ter que largar a vida. Eu ia voltar para a faculdade (cursa Design), mas não sei se vai ser possível. O que sei é que sou uma das mais velhas da equipe agora e passo a ter mais responsabilidade porque vou servir de exemplo para as pequenas. O que motiva é ver essa renovação. Vai ser bom cuidar delas, ensinar. A geração que está vindo é bem melhor e com potencial para trabalhar. Eu também quero lutar por medalhas. E sei que minhas maiores chances estão no salto.
Mas vê sua história terminando no Rio, em 2016? Por coincidência, sua história na ginástica começou também no Rio, no Pan de 2007.
Eu quero trabalhar bem e depois vou ver isso. Minha vida eu planejo por ciclos olímpicos (risos). Falei para o meu técnico esses dias (Ricardo Pereira) que estou preocupada com as Olimpíadas no Rio. Competi no Pan aqui e sei a dificuldade que é lidar com o público em casa. As pequenas vão ter que ter um trabalho voltado para isso, porque é uma competição diferente. Eu sei como é. Lembro até hoje daquele ginásio lotado, do chão tremendo. Temos que nos preparar muito bem e, se Deus quiser, virá uma medalha.
Quais são os seus objetivos fora do ginásio?
Eu queria voltar a estudar. Quero também repassar o que vivi, não sei se com uma escolinha, com um projeto social ou com um trabalho de coordenação. Não posso parar com isso. Acho que o importante é que os atletas passem a experiência que tiveram para que o processo não volte do zero.

Fonte: GLOBOESPORTE
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